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 Mas que merd*!

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AutorMensagem
Julius Kraven
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Número de Mensagens : 53
Idade : 25
Localização : Itabuna-Bahia
Data de inscrição : 05/05/2008

MensagemAssunto: Mas que merd*!   Qua 4 Jun - 14:50

-Mas que merda!

O palavrão até assustaria todo mundo se, naquela megalópole, não houvesse esse sentimento de “não-é-comigo”. Exceto se seu nome completo – é importante que seja completo, num lugar grande assim, tem muitos homônimos – ou um nome peculiar fosse chamado, não é com você.

Estava naquele tipo de lugar aconchegante escondido no meio do nada, com o notebook no colo, tentando escrever alguma coisa – qualquer coisa. Agradecia por não ter prazos. Aí sim, seria uma pessoa morta.

Ajeitou os discretos óculos escuros, meio quadrados mas de pontas arredondadas, passou a mão pelos cabelos relativamente curtos, que mal chegavam a cobrir seus olhos.

Era uma dessas pessoas descrentes de muita coisa, relativamente cética. Queria levar sua vida – que era relativamente agradável – e basicamente se orientava pelo que lhe dava prazer. Por isso, bebeu um gole do café que estava na sua habitual caneca do seu lado. Por que gostava de café.

Era uma vida relativamente solitária. Jovem demais, sem pais, tinha um patrimônio que permitia viver sem excessos por tempo indefinido. Fazia faculdade, mas talvez só para ter uma vida social e pra aprender coisas que achava, talvez, legais.

E escrevia.

Por puro prazer. Sua maior vontade era trancafiar-se - possivelmente naquele lugarzinho -, escrevendo e tomando café. De preferência chovendo. Já que gostava da chuva. E de café.

Era jovem. Não se achava desejável, mas também não era releventamente desgradável. Era relativamente normal. E isso não era exatamente legal. Era uma pessoa imprecisa.

Esticou-se na cadeira. Estava sem criatividade para escrever. Era uma pessoa cuja inspiração era rara, esparsa. E não escrevia exatamente bem. Era relativamente mediana. E isso incomodava de vez em quando. Incomodava bastante, especialmente por que não reconhecia o que escrevia. Não sabia o porquê, mas era assim.

Às vezes sentia um vazio. Um vazio imenso, uma saudade que não sabia de quê, e era essa que começava a dominar seu corpo. Balançou a cabeça para espantar o pensamento, os óculos derraparam e pousaram tranquilamente na mesa em cima de uma pilha de guardanapos. Observou seu próprio reflexo por um tempo, refletindo-se e refletindo sobre sua vida, que parecia vazia.

Pegou seus fones de ouvido, ligou na música depressiva que gostava, recolocou seus óculos e deixou os olhos derraparem pelo vazio à sua frente.

* * *

“Mas que merda!”

Pensou, mas não disse. Chovia. Não gostava de chuva. Absolutamente não gostava de chuva. Abrigou-se no pequeno estabelecimento que estava convenientemente do seu lado quando começou a chover. Era um lugar pequeno e com um cheiro levemente doce.

Ela com certeza gostava de doce. Sentou-se no balcão, folheou o cardápio, pensando no que tomar. Café, não. Capuccino, não. Chocolate, não. Vinho, cerveja, não, álcool não. Não queria tomar café, trazia más lembranças.

Foi ao banheiro. Não gostava de não saber o que queria. Absolutamente era uma pessoa decidida, e quando isso não era verdade absoluta, então que ficava com leve aborrecimento.

Olhou-se no espelho, mirou seus próprios olhos, seu olhar raso e simples. Absolutamente detestava ele. Todo mundo adorava, mas detestava o fato de que eles não podiam imprimir sentimentos profundos nos outros, exceto pena e uma vontade estranha, mas recorrente, de apertar suas bochechas.

O que ela absolutamente detestava.

Lavou o rosto, espantando-se com o fato de que a água era quente. Sentiu os músculos relaxarem, invadiu-lhe uma sensação de morna calma. Sempre tinha essa sensação, tal qual o cavaleiro que enfrenta a morte certa por sua honra, essa calma conformação, quando sentia água quente relaxar seus músculos. Adorava isso bastante. Era uma maneira simples e barata de conseguir um sentimento nobre. Apesar de absolutamente adorar mais os verdadeiros, mesmo que sujos, mesmo que polutos e desonrados.

Saiu do banheiro.

Ah, sua vida já tinha pouco tempo livre, e ainda tinha de se dar o luxo de esperar a chuva. Era uma das coisas que precisamente detestava: perder tempo quando não o possuia de fato. E como acreditava que o tempo era algo tão liquefeito que ninguém possuía em mãos, perder tempo era um fato, de fato, chato.

Trabalhava, estudava, e ainda tentava fazer algo útil pelo mundo. Não era o tipo que perdia tempo. Absolutamente não perdia.

Não perdia nada.

E achou curioso aquele par de olhos que se perdiam.

Por acaso, nos seus.

* * *

“Mas que merda!”

Pensaram.

Por perceber que estava dando uma secada nos olhos de outrem, ou por perceber que não havia mais uma cadeira disponível – todas tomadas por fugitivos desse algoz inofensivo, a chuva – exceto a da mesa dos olhos perdidos.

Repetiram o xingamento ao perceber que não haveria outra solução.

Por perder o relativo conforto da solidão ou por ter de enfrentar o medo absoluto da companhia.

Mas sentando-se à frente ou mantendo a distração – mero disfarce, permaneceram.

Sorriram.

Com relativo estranhamento, com absoluto riso.

E sem mais nem menos souberam. Desde o primeiro olhar.

Souberam, ou melhor; uma parte duvidou de sua imunidade à esse nobre sentimento, uma parte acreditou que ele vinha de novo. Mas no absoluto ou no relativo, a melhor certeza é de que havia chegado algo para sanar suas dúvidas, havia chegado algo para corroer suas certezas.

Já que amor à primeira vista é um jogo de dados.
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